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Recomendação de E.S. Oxes
Em junho de 2020 o mundo estava trancado em casa e a Netflix soltou um filme polonês sobre um mafioso siciliano que sequestra uma executiva de vendas e lhe dá um ano para se apaixonar por ele. O filme tem 0% no Rotten Tomatoes. Ficou semanas em primeiro lugar nos Estados Unidos. As duas coisas são verdade, e é essa contradição que faz de 365 Dias um objeto que vale ser olhado de perto. A pergunta não é “é bom?”. A resposta é não. A pergunta é: por que milhões de pessoas assistiram mesmo assim?
Título: 365 Dias (365 Dni)
Ano: 2020 (estreia na Netflix: 7 de junho de 2020)
Direção: Barbara Białowąs e Tomasz Mandes
Roteiro: Tomasz Klimala, Barbara Białowąs, Tomasz Mandes e Blanka Lipińska, a partir do romance de Blanka Lipińska
Elenco principal: Anna-Maria Sieklucka, Michele Morrone, Magdalena Lamparska, Otar Saralidze
Duração: 114 min
País: Polônia (idiomas: polonês, italiano e inglês)
Onde assistir: Netflix — a trilogia inteira está na plataforma
Nível de explicitação: 🌶️🌶️🌶️🌶️ (4/5)
Laura Biel é diretora de vendas em Varsóvia, tem um namorado que esquece o aniversário dela e uma vida que funciona no papel. Ela vai para a Sicília tentar consertar o relacionamento. Não consegue.
Massimo Torricelli é o chefe de uma família mafiosa siciliana. Cinco anos antes, levou um tiro e, entre a vida e a morte, viu o rosto de uma mulher. O rosto era o de Laura. Quando a encontra, ele a sequestra.
Massimo a leva para a mansão dele e propõe o termo que dá nome ao filme: ela tem 365 dias para se apaixonar. Ele promete não tocá-la sem que ela peça. Depois disso, o filme passa duas horas testando os limites dessa promessa — em iates, jatinhos, quartos de hotel em Roma, e num guarda-roupa que sozinho custa mais que a produção inteira. Laura resiste. Depois resiste menos. Depois deixa de resistir.
Por que 🌶️🌶️🌶️🌶️? As cenas de sexo são longas, frequentes e diretas — nudez, sexo oral, cenas que ocupam minutos de tela e não pedem licença. É o motivo pelo qual o filme viralizou no TikTok e nunca foi por outra coisa. A produção tem grana e a fotografia sabe usar. Funciona no nível em que se propõe a funcionar.
O sexo é simulado. Michele Morrone respondeu publicamente às especulações: disse que as cenas parecem reais porque os atores sabem fingir, e que não, não era real. Vale registrar, porque essa é uma das buscas mais frequentes sobre o filme.
E agora a parte que a maioria das resenhas pula. A fantasia da rendição — ser desejada de forma absoluta, perder o controle, entregar-se — é uma das fantasias eróticas mais comuns e mais legítimas que existem. Não há nada de errado em querer isso.
O problema de 365 Dias não é a fantasia. É que o filme não sabe a diferença entre encenar uma fantasia e endossar um crime. Laura é sequestrada de verdade dentro da história. Ela não pode ir embora. E o roteiro trata isso como o começo de um romance, não como o que é.
A cantora Duffy — que passou por um sequestro real, foi drogada e estuprada — escreveu uma carta aberta ao CEO da Netflix dizendo que o filme glamouriza a realidade brutal do tráfico sexual, do sequestro e do estupro, e pediu a retirada do catálogo. Uma petição no Change.org acompanhou o pedido. A Netflix manteve o filme no ar.
Você pode assistir. Milhões assistiram. Só assista sabendo o que está vendo.
Sozinha, ou com amigas, e provavelmente comentando em voz alta — que é como o filme foi consumido de fato. Como filme de casal, cuidado: a dinâmica de posse que ele romantiza não é um bom ponto de partida para conversa a dois, a menos que vocês já tenham essa conversa afiada.
🎵 Trilha: “Feel It”, de Michele Morrone — a música do filme, cantada pelo protagonista. É tão sincera na própria brega que fica quase honesta.
🍷 Ritual: vinho tinto, sofá, telefone na mão. Este é um filme para ser comentado enquanto acontece, não para ser reverenciado.
365 Dias é mal escrito, mal atuado e moralmente desleixado — e mesmo assim é o filme erótico mais assistido da década, o que diz mais sobre a fome do público do que sobre o filme. O que ele acerta, acerta por acidente: uma produção cara, um protagonista carismático e cenas de sexo que finalmente não cortam para a janela. O que ele erra, erra com uma confiança assustadora: transforma um cárcere privado em preliminares e nunca pisca.
A nota geral é baixa porque o filme é ruim. A nota erótica é alta porque ele cumpre o que promete no quarto. As duas coisas convivem, e a curadoria honesta é dizer isso em voz alta em vez de escolher só uma.
Não. Michele Morrone negou publicamente as especulações, dizendo que as cenas parecem reais porque os atores sabem fingir. O sexo é simulado.
Na Netflix, junto com as duas continuações da trilogia. Avalie se disponível no PRIME.
365 Dias (2020), 365 Dias: Hoje (2022) e Mais 365 Dias (2022). Todos na Netflix.
Nível 4 de 5 (🌶️🌶️🌶️🌶️): nudez, sexo oral e cenas longas e diretas, todas simuladas.
Porque a trama trata um sequestro real como início de romance. A cantora Duffy, sobrevivente de sequestro e estupro, escreveu ao CEO da Netflix pedindo a retirada do filme, e uma petição no Change.org fez o mesmo. A Netflix manteve o título no catálogo.
Já assistiu? Conta nos comentários — e se foi a dois, conta ainda mais. 😈
